O Melhor dos Alunos

Virtude e punição em “O nome da rosa” por Nathália Mariano de Souza *

O filme O nome da Rosa é uma sucessão de surpresas pela sua maneira desafiadora de expor problemas graves do passado advindos da Igreja, que são o cerceamento do conhecimento, a maneira autoritária com que são conduzidos os julgamentos e o jeito egocêntrico de a Igreja achar que era a única detentora da verdade.

Trata-se de um filme realizado em 1986, baseado no romance de Umberto Eco, com um ótimo visual, bonito. A direção de Jean-Jacques Annaud e a atuação de Sean Connery fazem a gente viver, durante o desenrolar do filme, em plena Idade Média. O filme se passa no ano de 1327.

Os temas acima elencados, acrescentado a questões como o tratamento dado as pessoas, as punições e a forma retrógada de pensamento, nos mostra que o diretor quis trazer a tona questões muito sérias, e acima de tudo uma reflexão sobre o início da transição ao pensamento moderno. Nessa reflexão, o filme utiliza tanto do pensamento de Santo Agostinho quanto da filosofia grega pagã. Agostinho incentivava utilizarmos tudo da filosofia que fosse compatível com a fé cristã. É deste pensamento que deriva o jeito empírico e analítico de William de Baskerville.

O nome da rosapode ser relacionado com outros filmes que trazem importantes problemáticas oriundas da Igreja como o filme Spotlighte como o livro O queijo e os vermesque aborda também a época da Santa Inquisição e os abusos cometidos pela Igreja.

Entretanto, diante de todo o exposto, a análise deste filme será mais centrada em como e onde os conceitos de virtude, proibição e punição são encontrados no filme, como estes se dão e se relacionam. Sabemos que são conceitos bastante subjetivos e com fácil variação de sentidos, mas abordarei tais conceitos e os relacionarei da forma a mais ampla possível.

A proibição é trabalhada no filme como impedimento ao acesso ao conhecimento, seja no campo religioso, na biologia (e no amor), na comédia e nas ciências (poder da mulher em gerar filhos). Era proibido ter acesso a estes livros, pois poderia despertar curiosidades e questionamentos. Segundo os guardiões dos livros, o acesso a eles tiraria a fé do povo e consequentemente em Deus.

A proibição do conhecimento é mostrada no ato de esconderem os livros nas torres. Aparece também nas cenas em que os monges leem escondidos um livro de comédia, fato que acabou levando-os a morte. A cena que William quase morre em prol de salvar alguns livros nos demonstra a importância da questão do compartilhamento do conhecimento.

Percebemos a presença da punição naquele momento histórico na forma como a Igreja castigava os que não eram obedientes a sua doutrina e imposições. O filme mostra as várias formas de punição, como quando o Grão- Inquiridor tortura as pessoas até conseguir uma confissão (seja esta verdadeira ou não). Passado a fase da tortura, os torturados eram levados para um julgamento, onde, se confirmada a vontade do Inquiridor, as pessoas eram levadas para a fogueira.

O conceito de virtude é a todo o momento trabalhado no filme. Primeiro a virtude no sentido de qualidade do que se conforma com o considerado correto e desejável: a obediência absoluta (e quem não acatava era punido com a morte na fogueira ou envenenado). No caso do filme, na ótica da Igreja, a virtude como obediência cega era um dos requisitos necessário para ser monge e viver no mosteiro.

Do ponto de vista da moral, do comportamento social da época, mas principalmente da religião, a virtude implicava em abstenção de relações carnais, seja com mulheres ou com homens, tendo a castidade tida como o comportamento certo. Exemplo disto é mostrado na cena em que um monge se flagela por ter tido prazeres sexuais com outro monge (compreendido como contrárias a natureza de Deus), e em consequência deste ato leva o outro monge ao suicídio. Outro exemplo é a cena em que Adso perde sua castidade.

Outrossim é abordada no filme a virtude no sentido de ter atitudes louváveis como no caso de William de Baskerville que se posiciona contra os julgamentos infundados e punições descabidas da Igreja, que era um ato de coragem gigantesca dada a época da Santa Inquisição e a tudo que ele já tinha passado com o Grão- Inquiridor.

William não só atribuía os acontecimentos à eventos sagrados, mas também usava o racional, usando de sua intelectualidade. Ele buscava conhecimentos fora do campo apenas do religioso. O que comprova isso é a cena em que ele esconde do outro monge o telescópio. Outros exemplos são a parte que ele cita Aristóteles e seus livros, e a cena em que ele fala para Adso que se fosse detentor de todas as respostas não seria monge, mas professor de ensino religioso em Londres. A forma como ele lida para desvendar os assassinatos demonstra uma pessoa politizada, intelectual, observadora das coisas.

Importante ressaltar também que, embora haja essa oposição entre ciência e religião, ambas são extremamente importantes e necessárias, sanando dúvidas e agregando valores e conhecimentos a nossa realidade.

Em suma, percebemos que a virtude foi trabalhada no filme sob duas visões, a da Igreja e a da modernidade. Constatamos que a Igreja concebe a virtude como castidade e obediência absoluta; já a virtude encontrada em William de Baskerville é a verdade, o conhecimento da ciência, agregado aos conhecimentos empíricos e espirituais. O nome da rosaé um filme que traz duras críticas ao passado da Igreja, traz reflexão para que as atrocidades anteriores não voltem aos dias atuais.

  • Acadêmica de Direito da PUC Goiás.

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