Ensaio

O umbigo da Vênus

A artista, há vinte e cinco mil anos, numa região que os homens contemporâneos chamam de Áustria, pegou um seixo rolado que tinha uma pequena cavidade natural na pedra de calcário e anteviu naquele seixo a imagem sagrada da fecundidade. Hoje, os historiadores da arte chamam essa estatueta de Vênus de Willendorf.
A pedra roliça e arredondada era sugestiva. A artista era imaginativa. Ela via imagens onde outras pessoas viam apenas a realidade prosaica e concreta: a pedra. A Vênus de 10,4 cm estava ali em sua mão, pedindo para sair de sua prisão: a superfície dura da pedra era seu cárcere. O formato roliço da pedra indicava à artista/xamã que ali dentro havia uma Vênus. A natureza dera o primeiro passo para libertá-la, fazendo a pequena cavidade que a artista não teve dúvidas em reconhecer como o umbigo da deusa.
Mais do que a antecipação da imagem da Vênus, a artista sentiu-se no dever sagrado de fazer prevalecer a forma definitiva da deusa da fecundidade. A cavidade na pedra (que seria o umbigo) era um importante detalhe a ser respeitado, a ser preservado na forma final. O umbigo é o centro, o centro energético, é o portal de comunicação entre os homens e as divindades, indicado ali na rocha que guardava a deusa.
A deusa queria se livrar do material que a continha. Com inspiração sagrada, a artista desejou libertar a Vênus e estabelecer a comunicação transcendente com a deusa que dá fecundidade às mulheres e à natureza.
A artista, confiante de sua missão sagrada, soube que o vir-a-ser daquele seixo devia conservar o que ele tinha de futuro. “O umbigo está pronto”, lembrava-se a artista a cada momento de seu trabalho. “A forma volumosa e roliça das nádegas e ventre já está pronta”, continuava a artista em seu diálogo simbólico. Desnecessário fazer detalhes das mãos, pés e feições do rosto. Importam a cabeça, os seios amplos e o sexo ostensivo que é por ali que a criança sai.

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Figura 1. A Vênus de Willendorf foi descoberta em 1909 na Áustria e está em exposição no Museu de História Natural de Viena. Com 10,4 cm, foi feita de calcário e pertence ao período Gravetiano (25.000 aC). “A chamada Vênus de Willendorf tem as formas arredondadas e bulbosas de um ‘seixo sagrado’. O seu umbigo, que marca o centro do desenho, é uma cavidade natural da pedra” (JANSON, H.W., História da arte. 5a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 29). Fonte: “Enciclopédia Multimídia da Arte Universal, Vol. 1, Arte Pré-histórica, mesopotâmica e egípcia”. CD-ROM. Imagem CDRArtU1-4340’41

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