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Arte e consumo, segundo Lipovetsky, por Julyane Martins Araújo

Arte e consumo, segundo Lipovetsky, por Julyane Martins Araújo, acadêmica de Design da PUC Goiás.

Gilles Lipovetsky é um filósofo francês que publicou na última virada de século trabalhos pertinentes, fazendo reflexão às consequências do capitalismo e globalização na sociedade atual, observando suas manifestações em novas formas de pensar e novos estilos de vida. Discutindo aspectos como o individualismo, a mentalidade da nova geração de consumo, a influência das mídias no cotidiano e o advento da tecnologia ligada ao uso pessoal, as obras de Lipovetsky possibilitam o acesso a um ponto de vista conscientizado da realidade, sugerindo que repensemos nossos ideais e percebamos o rumo que está tomando a sociedade de consumo. Esse filósofo me interessa porque sempre consegue estabelecer paralelos entre as formas de cultura pós-modernas (entre elas a arte) com as consequências negativas do capitalismo, trazendo uma visão um pouco pessimista, mas muito condizente com a realidade.
Em A Era do Vazio, Lipovetsky cita Daniel Bell, usando de sua expressão “eclipse da distância”(1976) para analisar a nova estrutura, finalidade e recepção da arte no pós-modernismo. De acordo com ele, as artes plásticas, cinematográficas, a literatura e a música sofreram evidente aproximação do espectador, chegando a fundir em seu cotidiano, quebrando a barreira antes existente entre arte e vida real. Considerando que, na atualidade, a busca do prazer como essência da vida tornou-se justificativa cultural e moral do comportamento consumista e capitalista, é compreensível que a arte tenha sofrido essa mudança em seu propósito.
A arte não se comporta mais como uma obra para se admirar e assistir à distância, para contemplar e refletir. Ela foi banalizada; agora o prazer estético vem a encontro das pessoas de forma fácil e em grandes volumes, por meio das mídias, da propaganda, do design de embalagens, de automóveis, dos filmes de Hollywood, enfim, de todas as partes responsáveis por criação de cultura efêmera. O espectador não possui mais tempo de digerir a informação contida nessas “peças artísticas”, não tem mais tempo de contemplar e entender a estética, pois existe uma leva de conteúdo semelhante que ele ainda não viu, e precisa dirigir sua atenção a todos eles antes que surjam outros. Dessa forma, o ser humano passou a consumir arte sem perceber, sem entender seu significado, e sem questionar por quê tal estética provocou-lhe alguma sensação. Ele só se preocupa em seguir em frente, consumir, ver e experimentar mais coisas que lhe estimulem os sentidos.
Enquanto isso, a arte pós-moderna usa da obsolescência acelerada, tem como propósito causar o impacto imediato sobre o espectador, surpreendê-lo instantaneamente e causar impressões de curto prazo de validade. Ao citar a música por exemplo, Lipovetsky menciona que o ser humano adquiriu a necessidade constante de experimentar uma “desrealização estimulante, eufórica e inebriante do mundo” (1989, p. 22), observável pela inserção da música em suas atividades cotidianas. Atualmente não é preciso ir aos bailes e concertos para se apreciar música. Agora levamos música conosco para todos os lugares e em todas as ocasiões, no carro, em casa, no trabalho, no transporte público. E a própria música já não carrega consigo o potencial contemplativo de antes, sendo que agora seu único propósito é o de distração, por meio de melodias aceleradas, repetitivas e letras sem significado.
Observa-se então uma personalização na recepção das obras de arte. A experiência estética não é mais “amarrada”, não precisa mais acontecer de determinado ponto de vista para ser entendida. Em vez disso, fica aberta a discussão, é fluida; o observador se torna colaborador do artista, mesmo que essa seja uma participação imaginária. Os perigos da inserção da arte na vida cotidiana são evidentes: a publicidade se tornou uma forma de arte, pois usa de experiências estéticas para estabelecer uma conexão entre o real e o fictício. Ao criar um universo utópico para seduzir o consumidor e induzi-lo a comprar um produto, a publicidade está usando de ferramentas artísticas de alta qualidade para uma finalidade vazia. Portanto, observa-se que a relação ser humano-arte-prazer estético assumiu um caráter superficial, foi vendida. A criatividade se dedica ao efêmero, e não possui outro propósito que não seja servir ao capitalismo.

REFERÊNCIAS
BELL, Daniel. The Cultural Contradictions of Capitalism. Nova York: Basic Books, 1976.
LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio. Lisboa: Relógio D’Água, 1989.

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