Ensaio

Arte a céu aberto

Fazer arte é um momento de engrandecimento da humanidade, um momento da afirmação da vontade, e mesmo da verdade, momento portanto de enfrentamento com a natureza simbólica. A arte revela o ser: pela arte ele se expõe, se assume, se reconhece como ser cultural, como ser humano. O homem “falava” com a divindade ao participar de um rito, ao fazer uma escultura, uma gravura ou um desenho. Ao realçar formas preexistentes, o ser humano “recebia” uma mensagem das divindades, especialmente da deusa Mãe. Mais tarde, ele cria sua arte, quando não existe uma forma pré-existente a ser realçada e, mesmo assim, ele retira o que está sobrando, faz incisões, deixa seu traço sobre a rocha. Quando cria sua arte, ele “envia” sua mensagem às divindades. Mandando sua mensagem, aquele homem se revelava em todos os ambientes que frequentava.
As representações naturalistas feitas no interior das cavernas são conhecidas. O que teria impedido o ser humano de também marcar com sua arte pedras e rochas que se encontravam fora das cavernas? Muito provavelmente ele pintou pedras e rochas que encontrou em sua área de locomoção e acampamento, mas infelizmente, expostas ao tempo, os desenhos e as pinturas não sobreviveram, contrariamente às feitas nas grutas ao abrigo do tempo e da oxidação.
Se a pintura fora da gruta não deixou vestígios que chegassem até nós, não há dúvida de que eles fizeram arte a céu aberto, como mostram os raros sítios arqueológicos encontrados na Espanha e em Portugal, onde o homem do paleolítico superior gravou por piquetagem extensas regiões e provavelmente recheou as gravuras com pinturas. A piquetagem, devido às suas características, sobreviveu ao tempo.

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Figura 1. Cabra-montês e auroque gravados na pedra por piquetagem em Foz Côa, Portugal. Sítio Rego da Vide. António Martinho Baptista. A técnica da piquetagem utilizada no Paleolítico Superior permitiu que a mensagem gravada a céu aberto chagasse até nós. Qual mensagem? A interação com a natureza. Fonte: http://www.arte-coa.pt
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Figura 2. Wassily Kandinsky. “Impressões V” (1911). Óleo sobre tela. Museu nacional de arte moderna, Centro Pompidou. Durante sua formação, Kandinsky abandonou o estúdio e foi pintar ao ar livre, em um movimento semelhante ao feito por aqueles da pré-história que saíram da gruta e se dedicaram à arte a céu aberto. A mensagem de interação com a natureza sobrevive ao tempo e inspirou essa fase abstracionista de Kandinsky. Fonte: Museu nacional de arte moderna, Centro Pompidou, Paris. Foto do autor (2012). Foto 2012/07-P1030024.jpg

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