Ensaio

Rito, arte e comunicação

Já no paleolítico superior, pela insistência da presença das Vênus esteatopígicas, pelas características das pinturas parietais e pelo grau de sofisticação que a humanidade havia alcançado, somos inevitavelmente levados a aceitar a hipótese de que o ser humano nessa época adotava uma visão simbólica do mundo e da vida, mesmo que não expressa por um pensamento discursivo, mas nem por isso menos verdadeira. Essa visão de mundo, relacionada com a deusa Mãe-Terra, envolvia a fertilidade e a caça, por meio das quais o ser humano revelava seus desejos e sua verdade.
Tal como o rito que só deixou restos materiais indiretos, o Cosmo de então é impalpável aos olhos de hoje, ficando sua interpretação sujeita a inúmeras interrogações. O que é indubitável é que, para o ser humano de então, não havia realidade objetiva (aquela que existe independentemente de cada um), havia a polissemia da natureza simbólica interagindo com ele.
Para nascerem e existirem, rito e arte carecem de uma visão simbólica do mundo e da vida, com a diferença de que a arte procura elaborar mais o simbólico. Um rito mais simples corresponde a uma fase mais incipiente de elaboração do simbólico, enquanto a arte exige que o simbólico tenha alcançado certo nível de sofisticação. Um ritual simples não carece de um simbolismo sofisticado e é por isso que a comunicação sagrada deve ter começado com um rito simples que foi se organizando paulatinamente. A arte requer um grau de complexidade maior, razão pela qual só apareceu mais tarde. O rito e a arte na pré-história são sagrados e são um meio de o homem prestar culto às divindades. Essas práticas sociais surgem como indispensáveis à comunicação simbólica que permite levar adiante o necessário diálogo sagrado.

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Figura 1. A Vênus de Savignano (cerca de 25.000 anos) foi descoberta em 1925 na vila de Savignano sul Panaro, em Módena, Itália. Desde as origens e mesmo sem domínio do pensamento discursivo, o ser humano adotava uma visão simbólica do mundo e da vida e expressava sua compreensão do mundo pela arte. Fonte: http://donsmaps.com/savignanovenus.html
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Figura 2. Roberto Matta, “Mulher se masturbando no útero”, detalhe de “Xpaço e o ego” (Xpace and the ego) (1945). Para Matta, os estados de existência do Ego contemporâneo são formados de violência e sexo. Com sua arte, Matta expressa essa compreensão. “Submetida às pulsões contrárias de Eros e Tanatos, essa figura de quase-ficção-científica oferece uma nova imagem virtual do homem que se debate e se dissolve em um espaço esvaziado de suas referências” (Centro Pompidou, dezembro de 2011). O ser humano contemporâneo simboliza a existência pelo filtro da violência e do sexo. A visão simbólica da vida e do outro é objeto de permanente recriação ao longo da história da humanidade. Fonte: Museu nacional de arte moderna, Centro Pompidou, Paris. Foto do autor (2011). Foto 2011/12-P1010824b.jpg

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