Ensaio

O encantamento da fertilidade e o caçador

Quando homens e mulheres se pintavam, cada um tinha intenções diferentes, já que tinham práticas sociais que se diferenciavam. É impensável a pintura corporal dissociada dos ritos de caça e de fertilidade. O encantamento da fertilidade era necessário para que as mulheres engravidassem. Não havendo ainda a compreensão da relação sexo e gravidez, a mulher se pintava para melhorar as condições de receber a dádiva divina da fecundação. Pintar-se e usar adornos corporais eram metamorfoses necessárias para expressar o desejo diante da deusa Mãe e assim ser agraciada com a gravidez.
No homem, a metamorfose ocasionada pela ornamentação fazia surgir o caçador que havia dentro dele e assim ele se sentia forte para enfrentar, por exemplo, um mamute durante a caça. O homem se embelezava (pintura corporal e adornos) para melhorar as condições de êxito na caça, vale dizer, atraindo a deusa Mãe, melhorar sua convicção de que ela ia estar a seu lado durante a caça. A preparação para a caça era um ato religioso, um culto.
Se a arte mais característica desse período são as Vênus esteatopígicas, a escultura paleolítica realizada pelo sapiens moderno não se esgota aí, apesar de toda ela manter características de deformação simbólica. Uma estatueta exemplar, apesar de única, é o homem de Hohlenstein. Com 29,6 cm e feita de marfim de mamute, ela foi encontrada em Bade-Würtemberg, Alemanha, e data de 30.000 anos aC. Encontra-se atualmente no Ulmer Museum, em Ulm. Nessa estatueta, o homem tem a cabeça de leão, o que com certeza representa a vontade de o artista/xamã ver o grupo de caçadores compartilhar da força desse animal e de sua habilidade na caça. As patas, aparentemente de cavalo, fazem alusão à velocidade desses quadrúpedes, a velocidade sendo outro desejo de superação.

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Figura 1. O Homo sapiens surgiu na África há aproximadamente 200 mil anos. Já o Homo sapiens sapiens (também chamado de humanidade nova, que somos nós) surgiu por volta de 90 mil anos, provavelmente a partir do Homo erectus. Originalmente, o homem da humanidade nova usava o fogo para preparar alimentos, portava roupa de pele de animais e fazia cabanas simples para se proteger do tempo. Ele era caçador, coletor, inteligente, religioso e artista. Os primeiros sapiens sapiens tinham uma visão simbólica e sagrada do mundo em que viviam e prestavam culto às suas divindades. Fonte: https://line.do/es/tema-9-la-prehistoria/d9j/vertical?from=pk
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Figura 2: O homem de Hohlenstein. Esta é uma das raras estatuetas desse tipo. Tem cerca de 32.000 anos. Feito de marfim de mamute, com 29,6 cm, encontra-se no Museu de Ulm, Alemanha. É impensável dissociar essa estatueta dos ritos de caça e do desejo de se colocar melhor na caça. Fonte: https://artislimited.wordpress.com/2013/02/04/the-mysterious-lion-man-gets-re-dated-to-40000-bce-making-it-the-oldest-figurative-sculpture-and-even-more-of-a-mystery/
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Figura 3. Salvador Dalí, “A Última Ceia” (1955). A religiosidade está presente mesmo em uma obra de alguém irreverente e provocador como Dalí. Com ou sem provocação, a religiosidade é um irrecusável tema da arte de todos os tempos. Fonte: http://dialogospoeticosimello.blogspot.com.br/2010_01_01_archive.html

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