Ensaio

A estética e o trabalho

Na pintura corporal, ao querer ser outro, o homem já tinha pelo menos uma noção de sua aparência. Entretanto, querendo ser outro, ele queria ser outro animal (e não outro homem). Isso significa que ele se identificava como ser humano em geral e não como indivíduo.

Na pintura corporal, ao querer ser outro, o homem já tinha pelo menos uma noção de sua aparência. Entretanto, querendo ser outro, ele queria ser outro animal (e não outro homem). Isso significa que ele se identificava como ser humano em geral e não como indivíduo. Quando ele queria ser outro, ele visava a natureza e fazia sua escolha. Ele não reconhecia outro ser humano como seu outro, mas seu outro situava-se fora de sua espécie. Reconhecer-se como indivíduo só ocorrerá muito tempo depois, quando ele se colocar socialmente diante de outro homem. E a disposição de se comportar como se fosse outro indivíduo só vai se manifestar no século VI aC, quando nasceu o teatro.
Se homens e mulheres se pintavam e usavam adornos, não se tratava de se embelezar no sentido de se ficar mais atraente diante do outro, ideia esta que veio a surgir milhares de anos depois. Hoje, o adorno é comunicação com o outro e aponta na direção da atração, da ostentação de poder, da afirmação de si etc.
Pintura corporal e adorno tinham naquele contexto o caráter de algo com sentido simbólico e sagrado. O ser humano tinha a compreensão de que as forças sobrenaturais existiam em outra dimensão; a arte, extrapolando a natureza, também tinha outra dimensão: a pintura corporal e os pingentes colocavam então o ser humano nessa outra dimensão na qual a comunicação com o sobrenatural era possível. A pintura corporal, o adorno e, em sentido mais geral, a arte eram práticas sociais sagradas que visavam comunicação com a divindade.
Como toda atividade realizada naquela época, o trabalho também tinha uma conotação simbólica e transcendente. Para manipular a natureza sagrada (com a caça e com a coleta) era evidentemente necessário um instrumento também sagrado.

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Figura 1. Instrumentos dos neandertais. O homem de Neandertal era muito versátil na produção de lascas. Ele media entre 1,50 e 1,65 m e pesava aproximadamente 80 Kg. Consequência da adaptação ao intenso frio que fazia em sua época, ele era robusto, de tronco longo e pernas curtas. O que há de mais espetacular no Neandertal, no entanto, foi sua adesão a uma visão simbólica do mundo, que aparece na pintura corporal e no adorno. Fonte: La Flecha del Tiempo. Disponível em laflechadeltiempo.com
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Figura 2. Gustav Klimt, “Adele Bloch-Bauer I” (1907), Neue Galerie, New York. Se bem que com um significado diferente, a ornamentação está bem presente na figura feminina de Klimt. Mas, já imaginou Adele Bloch-Bauer utilizando os instrumentos neandertais… Fonte: http://www.gustav-klimt.com/Portrait-Of-Adele-Bloch-Bauer-1.jsp

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