Ensaio

A referência da arte é o sagrado

Em que se baseia a afirmação de que a produção da biface buscava uma estética? A resposta é simples: não há justificativa funcional para sua simetria! Essa pedra lascada – que não era uma simples pedra, nem uma simples lasca – poderia cumprir todas as suas funções sem sua dupla simetria. A biface tem um significado que vai além de suas funções, que vai além das necessidades materiais do ser humano. Pela primeira vez, o homem realizou algo abstrato mesmo que colado a um utensílio. Nessas condições, não há como fugir à conclusão de que a simetria é uma busca estética, até porque muitos povos iniciaram na geometria a sua caminhada.
Com a biface, a humanidade criou o belo. A estética da biface é transcendente, já que não há geometria na natureza, não há simetria na natureza, a natureza apenas sugere. Sendo criação humana, é transcendente. Por outro lado, talvez seja válido dizer que, com a biface, estamos diante de uma arte imanente, que existe como uma das propriedades do objeto. Apesar da estética transcendente, a arte da biface é imanente. O belo surgiu somente como um acessório, como uma propriedade de um objeto. A biface está ligada ao sagrado por ser bela: o artista, por meio da arte, procura estar em comunicação com a divindade durante sua confecção e sua utilização ritual. A humanidade ainda irá percorrer um longo caminho até chegar à busca do belo enquanto expressão estética dissociada de qualquer objeto.
Aqui se estabelece uma distinção entre o longo período em que a intenção do artista era a comunicação com a divindade e o curto, apesar de importante, período de existência da humanidade, sobretudo a partir do Renascimento europeu, em que a arte está referenciada ao outro, e a intenção do artista é a de buscar o belo, tal como ele é estabelecido em cada conjuntura histórica. A referência ao outro não elimina outras intenções que o artista moderno pode eventualmente ter: passar uma mensagem, ganhar fama e dinheiro etc.

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Figura 1. Biface da cultura Acheulense (entre 1,5 milhões e 200.000 anos atrás). A simetria da biface marca a primeiríssima iniciativa da busca do belo. A natureza não criou a simetria (e sim o ser humano), mas a sugeriu em muitos ângulos de sua paisagem. Fonte: http://assuntosdaana.blogspot.com.br/2010/03/os-primeiros-artistas-da-humanidade-os.html
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Figura 2. Andreas Eriksson, “Troncos” (Stubbe) (2012). A busca do belo hoje passa por opções bem distantes daquelas vividas por nossos antepassados. O que é extraordinário é, diante de objetos tão diferentes, usarmos o mesmo termo, ao mesmo tempo abrangente e mágico: arte. Fonte: Museu nacional de arte moderna, Centro Pompidou, Paris. Foto do autor (2013)

 

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